Leão – Uma questão de sobrevivência
Parece que o destino tinha marcado o Leão para ser abatido.
Terá nascido num criador afamado e foi para uma família onde o seu dono morreu. A dona não soube ou não quis educá-lo e ganhou-lhe medo à medida que ele ia crescendo.
Disseram-nos que passou os primeiros meses da sua vida preso a uma corrente e terá levado muita pancada. Com quatro meses, foi entregue num canil para ser abatido.
Deus protegeu-o pela primeira vez através duma veterinária do canil que, apaixonando-se pela sua beleza, divulgou a sua existência fazendo-o chegar até à nossa família.
Ainda antes da adopção procurámos saber tudo sobre os Serra da Estrela, raça com que nunca tínhamos lidado. O que estudámos, está longe de ensinar o que é esta nobre raça.
Tratámo-lo como os outros membros da nossa família canina, mas tal foi insuficiente por causa dos mau tratos que sofrera e pela nossa ignorância em lidar com esta raça, apesar do amor que lhe devotámos. Penso que só eu é que nunca fui mordido pelo Leão.
Começámos a questionar-nos sobre o que deveríamos fazer e acordámos que em mais de trinta anos de casamento, sempre com cães, nunca tínhamos desistido de nenhum animal e nunca tivemos nenhum acorrentado, não queríamos começar agora.
Procurámos um treinador que procurou ensinar o Leão. Tudo o que conseguimos foi um Serra da Estrela lindo e magnificamente penteado mas que continuava condicionado pelo seu início de vida – fraca consolação para quem era mordido, poder dizer que tinha sido mordido por um cão lindo. O cabeleireiro, digo treinador, não resolveu o problema do Leão.
A nossa preocupação crescia à medida que o Leão crescia. À medida que iam ocorrendo comportamentos “indesejáveis”, víamos a nossa vida a andar para trás. Os nossos amigos tinha medo de nos visitar. Já não sabíamos o que fazer mais.
Deus interveio de novo e levou-nos à Caninus do João Névoa.
O João começou por ensinar-nos o que era um Serra da Estrela – um cão de trabalho. Ensinou-nos que tudo aquilo que desgostávamos era o resultado do aprimoramento de uma raça ao longo de mais de dois milénios.
O problema – inicialmente – não estava no cão, mas sim na ignorância com que os donos anteriores e nós usáramos para lidar com o Leão. Era preciso ensinar-nos a nós e descondicionar o cão respeitando as características da sua raça.
E, lentamente – é uma raça portuguesa, não quer ir com muitas pressas – o Leão foi ganhando uma vida nova.
É incrível o conhecimento profundo do João Névoa sobre as características, especificidades e necessidades de treino de cada raça.
O João treinou o Leão e treinou-nos a nós. Com as condicionantes próprias da raça, o Leão é actualmente um cão perfeitamente sociável com pessoas e outros animais.
O João modificou as nossas vidas.
Obrigado Caninus, obrigado João. Bem hajam.
Pedro Veiga Cardoso